quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PARA SEMPRE ELVIS

Fui caminhar no bairro da Urca. A vista da Baia da Guanabara me acalma, e faz muito bem a minha retina. Na metade da caminhada, sou pega de surpresa por uma dessas chuvas forte de verão.
Não corro, afinal iria me molhar de qualquer jeito, pois tinha deixado o carro há mais de 2 km , de onde estava.
A chuva bateu forte, roupas coladas no corpo, totalmente molhadas, lavaram minha alma. Sem pressa fui até ao final de meu destino, retornei, e mais uma vez confirmei que as pessoas que já estão molhadas, na praia, quando chove, correm pra se abrigar. Por que será? rsrsr
Na volta, presa no engarrafamento de um fim de tarde, escuto o rádio, e observo a chuva, que teima em continuar caindo.
De repente, ele começou a cantar... Elvis, tão raro no rádio, chegou pra me encantar, e me trazer lembranças da minha vida em família.
Meus pais adoravam Elvis Presley, ele embalou a adolescência deles, e eu passei minha infância, escutando Elvis. Independente dele “estar” fora de moda...
Tinha também, alguns filmes que passavam na TV, onde se via um homem belo, de um rosto apaixonante, cantando maravilhosamente bem.
Eu que tinha dele uma imagem de juventude e beleza, fiquei surpresa ao vê-lo como uma figura bizarra, e logo depois a morte.
Na verdade apaguei aquele famoso vídeo, onde ele aparece inchado, com uma roupa cafona, suarento, cansado, totalmente decadente. Para mim, ele era uma figura “velha”, estranha, enfim, não batia com “aquele” outro.
Na minha pouca experiência de vida, não tinha noção do que se passava no mundo de Elvis, nem tinha, ainda, capacidade e maturidade para entender.
Aos poucos ele foi saindo de cena, na minha casa, e da minha vida. Nova trilha sonora tocava na família, e os meus gostos foram ampliados, e eu já nem escutava os que os pais ouviam.
Reencontrei Elvis, muitos anos depois, através de outras pessoas que gostavam dele, mas ele continuou escondidinho dentro de mim.
Com a internet, passei a “baixar” músicas, pesquisar no you tube, e ele renasceu na minha história.
Pude perceber algumas coisas nele. Li “biografias” não autorizadas, e fui tendo um carinho especial por esse homem morto, que foi “mito”, em vida, mas que sofreu como qualquer mortal.
Passei a me questionar, os motivos pelos quais as pessoas de tanto sucesso, acabam de certa maneira, da forma como ele terminou. Depressivos, envolvidos com drogas, com vidas afetivas complicadas, explorados, mal amados, frustrados, usados e alguns mortos precocemente.
Aconteceu com Jimi Hendrix, Janis Joplin, Michael Jackson, Carmem Miranda, entre tantos ídolos, com problemas, só pra citar alguns...
Carmem Miranda, que “conheci”, através da ótima biografia de Ruy Castro, era “dona” de uma personalidade adorável. Alegre, independente, líder, extrovertida, amiga dos amigos. Que mesmo assim, foi “contaminada” pela síndrome do sucesso, e acabou literalmente, “sendo morta” por excessos de remédios para dormir, aos 46 anos de idade.
Voltando a ele. Elvis foi um ídolo, não só para geração dele, mas um divisor de águas, entre um mundo ainda ligado a grandes orquestras, e alguns cantores clássicos.
Elvis “jogou” no mundo o “Rock and Roll”. Com ele veio o direito do homem dançar sensualmente, sem ser julgado homossexual. Elvis era sexy!
Toda uma geração se espelhou nas atitudes dele, que era um “bom rapaz”, que adorava a mãe, e muito dependente desse sentimento. Ao contrário de outro ícone da época, James Dean, Elvis tinha família, era sentimental, nada revoltado, queria apenas ser sucesso. Afinal, conseguiu...
O restante da história, todos nós sabemos. O belo Elvis, que poderia ter todas as mulheres do mundo, como simples ser humano, se apaixonou pela linda Priscila, com ela casou, mas casamento não é conto de fadas, e a musa foi embora, talvez cansada, das bebedeiras, da montanha russa dos sentimentos desconectados, e com ela levou a única filha do casal.
Daquele momento em diante, o ídolo caiu de vez. Sem amparo sentimental, a mãe já tinha morrido há tempo, e sem aquele grande amor, Elvis se mostrou frágil, manipulado, usando cada vez mais remédios para depressão, e para dormir. Com tendência a engordar, perdeu a figura sensual, envelheceu precocemente, afundou...
Fiquei imaginando um diálogo impossível, entre eu e ele. Seria uma “viagem” no tempo.
Eu uma pessoa de outra geração, que nasceu no Brasil, de mundos diferentes, sentaríamos nos jardins dos meus avós, daquela casa que já nem existe mais, cercados pelos jasmins, damas da noite, e bouganvilles, plantados pela minha avó. Naquele banco de madeira feito pelas mãos calejadas do meu avozinho português, travaríamos uma conversa de horas. Aquelas que só temos com grandes amigos, e mesmo assim, com muitas afinidades...
Falaríamos de amor, dos nossos medos, em que momento ele se perdeu, e da falta que faz a gente não ter contado com nosso mundo interior. Falaríamos de como a autoestima é importante, e de como o amor próprio é fundamental pra sobrevivência de qualquer ser humano.
Depois ele iria se levantar, beijaria as minhas mãos, e sumiria no escuro da noite... com um breve: Espero você lá...
Talvez, quando esse dia chegar , eu o encontre já refeito das mazelas humanas, lindo, sorridente e cantando, só para mim, “Love me Tender”...
E, devolvendo aquele sorriso, eu afirmaria: Agora é para sempre!

3 comentários:

A.S. disse...

Digo contigo: PARA SEMPRE!!!

Beijos!
AL

Arlei disse...

Nádia;
Elvis tem tudo a ver com a chuva do início do teu post (sincronicidade, alguém...?)- Elvis era um vulcão criativo, cheio de juventude e originalidade, encharcado do verdadeiro espírito da música do século XX - depois paradoxalmente correu para se abrigar da chuva de rebeldia dos anos 60 (na verdade, forçaram-no a se abrigar - ele teve a infelicidade de ser ser capturado pela máquina do show business made in U.S.A., ao contrário dos britânicos Beatles que conseguiram manter sua independência criativa) e tornou-se uma caricatura do Elvis de antes. James Dean, que você citou, escapou desta armadilha através da morte precoce - não temos uma imagem de James Dean gordo e suado para corromper o original. Por isso acho (e Elvis certamente aprovaria)que o Elvis que devemos guardar não é o que ficou embaixo de um guarda-chuva de babados e lantejoulas, mas o Elvis molhado dos pés à cabeça na música seminal que ele fez entre os anos 50 e 60!
E viva os banhos de chuva...
Abração, Nádia!

Francisco disse...

Apesar da linda voz, confesso que nunca fui um grande fã de Elvis. Mesmo assim, a fase "pré-brega" foi revolucionária para os padrões vigentes na época.
O cabelo e rebolados, foram idealizados pelo Coronel Tom Parker, que jamais havia sido empresário, e acertou em cheio nas expectativas da juventude dos anos 50.
Diferente dos Beatles, que na minha opinião eram mais autênticos e menos suscetíveis à receber ordens, Elvis foi perfeito divulgando o exército americano em alguns filmes, fazendo com que vários jovens ingresassem nas forças armadas.
Acho que um dia ele cansou daquilo tudo, e deu no que deu!
Apesar de tudo...Elvis não morreu!!
Lindo post como sempre, Nádia. Parabéns.
Um beijo (com topete e boquinha torta...rss)