terça-feira, 12 de abril de 2011

PARA NÃO MAIS ESQUECER...


Conhecer certos fatos, saber do acontecido, é bem diferente de se vivenciar, no local, um determinado feito, seja ele histórico, ou mesmo familiar, pessoal... Como descendente de imigrantes, fui algumas vezes às aldeias de minha família, e lá, mesmo em tempo atual, pude vivenciar os fatos contados pelos meus pais, ou mesmo imaginar como era a vida por aquelas paragens.

Estou em viagem pelo leste Europeu. Pelos motivos óbvios, alguns países dei um tempo de conhecer, pois recém saídos do regime comunista, pouco tinham a oferecer, a não ser uma infra-estrutura precária de turismo, e problemas com a língua, já que poucos falavam inglês, o que dificultaria totalmente a comunicação. Algo que adoro fazer, apesar do meu filhote dizer: “mãe, você se comunica em todas as línguas do planeta”...rs

Brincadeiras à parte, aqui estou eu na Polônia, país que conhecia através de amigos descendentes de poloneses, e um pouco da história.

Cracóvia me surpreendeu pela alegria, juventude de seus habitantes, colorido, efervescência, já que é uma cidade universitária.

Porém eu tinha um encontro marcado, e esse compromisso me deixava ansiosa, numa mistura de aperto no peito, e necessidade de viver isso. Um pouco de sofrimento nessa espera.

Bem, não sou uma pessoa masoquista, nem fico cultivando sofrimentos, não fujo das minhas dores, mas não tenho hábito de dividí-las. Talvez, por achar que o sofrimento seja só meu, ou mesmo pela certeza que vai passar...

Esse encontro tinha data e hora. Então, no dia 2 de abril de 2011, um domingo de primavera, numa manhã de sol preguiçoso, e de temperatura de inverno, uma Nádia calada, emocionada, mas profundamente em paz, ultrapassou os portões de AUSCHIWTZ.

O campo estava repleto, não só por ser fim de semana, como também pelos inúmeros grupos de jovens judeus, do mundo inteiro, que visitam o campo, numa forma de purgar os sofrimentos de seus antepassados.

Esse movimento chama-se “Caminhada da Vida”, pois quando acabou a guerra, e os campos foram liberados pelos aliados, os prisioneiros foram andando sem destino, numa caminhada, que tempos depois recebeu esse nome.

Lá estava eu no meio de desconhecidos, em grande maioria, judeus, mas tão emocionada quantos eles. Por incrível que pareça, aquele cenário me passou muita paz. Porém, como o inferno pode transmitir tranqüilidade? Talvez pela certeza que ele está desativado, e que seja um símbolo de algo que nunca devemos esquecer...

Começamos por salas onde nos eram explicados, que outras categorias de pessoas foram mortas no campo. Os ciganos, que eu já sabia, intelectuais poloneses, padres, homossexuais declarados, e a grande maioria de judeus, de todas as idades.

Em princípio eles vinham para o campo, na esperança que isso seria temporário, mas logo eram divididos, suas bagagens e pertences retirados, e encaminhados as câmaras de gás, ou escolhidos para trabalhar. Claro que crianças, velhos, mulheres grávidas, doentes, deficientes, eram logo mortos. O restante ia morrer lentamente, nos trabalhos forçados, na tortura física e moral, nos experimentos dos médicos nazistas loucos.

Entre as inúmeras salas repletas de bagagens, cabelos, óculos, brinquedos, roupas, tinha também os dormitórios, onde ficavam amontoados, depois de um dia de trabalhos forçados.

Na frente da guia que falava através de fones de ouvidos, fui me distanciando. E em determinado momento me separei do grupo, e sai a vagar pelas alamedas, escutando aquele silêncio, imaginando as sirenes que tocavam, no final do dia, pra contagem dos prisioneiros.

Em alguns momentos sentei nos degraus da entrada de algum alojamento, e me deixei ficar ali, numa entrega total, diante de tanto sofrimento, em nome da “purificação” de uma “raça”.

Acho que tive uma ausência total de pensamentos. Fiquei sentindo apenas no meu rosto o sol, o vento frio, olhando daquelas árvores nuas do recém inverno europeu, sob um céu azul turquesa, parecido com os do outono brasileiro.

Apenas sentir também é muito bom, e diante do inexplicável, só mesmo sentido...

Não existe nenhuma explicação cabível, diante de tanto terror. A capacidade do ser humano fazer mal a outro ser, é sem limites. O poder muitas das vezes, transformam homens em animais famintos, mas esses só matam por fome ou quando ameaçados. O homem mata por prazer...

Não tenho dúvidas que somos todos capazes de matar. No calor de uma discussão, como auto defesa, ou mesmo por imprudência e irresponsabilidade. Porém matar, durante anos, com requintes de crueldade, separando, estuprando, violentando famílias inteiras, exterminando seres que nada fizeram, apenas pela ideologia de um louco carismático, foge a qualquer entendimento, explicação política, ou mesmo razão.

Nada justifica tamanho terror, e apesar de todo conhecimento, coisas semelhantes continuam acontecendo. A guerra na Sérvia é um exemplo clássico disso.

No meu distanciamento, eu que pouco sei rezar, orei...

De dentro da minha alma, um grito calado de perdão pra aqueles que se foram, perdão pelo mal que outros os causaram, pelas marcas deixadas impressa no DNA de seus descendentes, nas lagrímas da menina judia, que eu vi chorando num daqueles corredores.

Eu, na minha solidão escolhida, pedi perdão pelos outros. Pelas dores, pelo terror...

AUSCHITWZ tem que ser mantido como um monumento de respeito à dor de seres humanos, que foram massacrados, exterminados, com requinte de crueldade, e que essa ferida jamais irá passar. Assim como as grandes dores coletivas, guerras, escravatura, tráfico de humanos, extermínio, multilação de mulheres, por algumas culturas, elas devem sempre serem lembradas, para que não mais se repitam.

Posso dizer que sai do Campo de concentração me sentindo diferente, pequena diante dos meus problemas do cotidiano, mas imensa diante da dor do outro...

terça-feira, 22 de março de 2011

MENINAS !!!



Nunca acreditei em destino, sempre achei que temos o livre arbítrio em tudo, salvo acidentes, doenças, estar na hora errada e no lugar errado...rsrs
Bem, mas sempre é tempo de mudar nossos conceitos. Não que eu tenha passado a acreditar que tudo já está escrito, seja nas estrelas, nas linhas das nossas mãos, ou mesmo na primeira cartomante mentirosa da esquina.
Continuo a crer que podemos mudar nossas histórias, porém existe o mistério, aquele que vive nas sombras, que nos surpreende de repente, tanto para o bem, quanto para o mal.
No ponto de vista afetivo, amoroso, da amizade, acho até que existe mais o mistério, do que o livre arbítrio, e a nossa sensação que se está escolhendo, é pura ficção.
Algo de mágico acontece quando escolhemos nossos amores. Os ligados à psicologia, dizem que é o nosso inconsciente, nossa história de vida dos primeiros anos que nos levam a certas opções amorosas.
Quer dizer, nosso passado faz nossas escolhas no presente.
Eu não sei, mas como a maioria das pessoas, eu só sinto. E são os meus sentimentos que me levam ao encontro de alguém.
Assim também funciono em relação à amizade, que é um sentimento de amor, porém sem sexo.
Normalmente uma grande amizade inicia diante de muitas afinidades, da convivência, ou em último caso, o nada nobre fato, do interesse.
Recentemente descobri um novo aditivo para surgir uma grande amizade. Talvez esse sentimento estivesse escrito no nosso caminho, fosse ele um ensinamento, um aprendizado, ou apenas tinha que acontecer...
Nos aproximamos através de terceiros, aliás, antipatia no primeiro olhar...rsrs
Uma vez li um texto ótimo de Rubem Alves, que dizia que o ódio unia mais que o amor. Acredito nisso até a página dois, pois gente saudável não cultiva ódios, pois eles são causa de doenças e desgaste.
Não odiava a pessoa, mas era um certo mal estar saber da presença. Tempos depois, já amigas, descobri que a recíproca era verdadeira. Eu também, era quase odiada por ela.
Trocamos apelidos nada calorosos, e não queríamos ver, nem saber, uma da outra, numa indiferença falsa, que revelava a imensa atração por entender e descobrir, mutuamente, quem éramos nós...
Um dia aconteceu, por caminhos tortuosos, mas ao mesmo tempo abertos, simples, como se a mãos divinas, dissessem: Agora chega, a lição foi passada; nos aproximamos, primeiro timidamente, depois com avidez de quem se descobre por inteiro.
Diante da magia dessa amizade, afeto, sintonia, nasceram duas novas mulheres. Uma menos armada, briguenta, “inimiga” de peso. Outra menos fria, calculista, pragmática.
Essas duas se transformaram nas meninas que foram um dia, numa doação de carinho, afeto e dedicação, quase viciante.
Esse final feliz, ou melhor caminho feliz, só foi possível, pois dentro de nós, existe caráter, inteligência, sensibilidade, verdade, dignidade, honestidade de propósitos, sentimentos puro de afeto e amizade.
Somos muito parecidas, sem ser espelho, mistura de doce com pimenta, gerando um agridoce, que se completa com o nosso gostar por chocolate, chá mate, viagens, fotos pessoais, filhos, família e bichos...
No mais, é uma amizade imensa, muitos risos, críticas construtivas, piadas sobre o nosso viver, colo, brincadeiras espontâneas, cumplicidade, confidências, torcida pelo sucesso da outra, felicidade compartilhada, enfim AMOR !

Esse post, é para CRISTINA VALENTE MOUTA, amiga querida, com quem eu divido, também, a minha alegria de viver.

segunda-feira, 7 de março de 2011

DE MENTIRAS, FANTASIAS E CARNAVAL...

Sempre tive problemas com as mentiras. Sou péssima mentirosa, é uma coisa quase infantil.Sou pega logo na segunda frase...rsrsrs
Não que eu não tente, pois algumas mentiras são até necessárias pra nossa sobrevivência social, mas, por saber dessa minha falta de vocação pra tal ato, evito o máximo o possível.
Até hoje tenho certo fascínio pela mentira. Pela capacidade de que tem certas pessoas em mentir, tão perfeitamente. Conheci alguns profissionais da mentira; pessoas que fazem das mentiras, suas verdades.
Claro que a mentira levada ao extremo, é doença, mau caratismo, canalhice, cretinismo, cinismo... Enfim, vários adjetivos nada nobres.
Acho que o grande mentiroso(a), é sempre uma pessoa de muita criatividade, salvo os sem caráter, esses são pilantras mesmo...rsrsrs
O mentiroso profissional, mesmo sendo inteligente, esperto, é uma pessoa de baixa auto-estima, pois precisa de todo um universo paralelo não existente pra se apoiar, e sobreviver a sua própria ruína emocional.
Montar uma história, com todos os detalhes, fingir sentimentos, criar situações, forjar personagens, envolver terceiros sem que esses saibam, é uma característica desses estelionatários da verdade. Algumas vezes fiquei pasma ao descobrir certas mentiras que de tão “verdadeiras”, já faziam parte até da minha própria verdade.
Fico a imaginar essa mente mentirosa, que nunca se confunde, mas que peca por alguns detalhes, ou encontra uma pessoa como eu; observadora...
O escritor de ficção seria um grande mentiroso, se apenas colocasse em prática todo o seu mundo não real. Porém, ele passa para o papel, suas histórias, criando todo um envolvimento com o leitor, com sonhos, verdades, enredos, que mexem com os nossos sentidos e suscitam, lembranças.
A mentira, apesar de também não existir, de forma real, tem muito haver com a fantasia.
Fantasiamos aquilo que desejamos ser na verdade, ou mesmo que gostaríamos de viver.
As fantasias sexuais, quando compartilhadas com o(a) parceiro(a), e bem recebidas por esses, dão uma liga e une, profundamente, o casal. Passa a fazer parte da intimidade dessa relação, e cria um clima de sedução necessária a toda boa vida sexual.
Podemos realizar nossas fantasias, mas na maioria das vezes, elas são apenas fantasias mesmo, pois nasceram pra serem isso.
Um jogo de sedução, que envolvam situações, objetos, outras pessoas, roupas diferentes, ambientes estranhos; mas que são apenas fantasias, são bem-vindas e podem alimentar um amor durante anos...
Penso também nas fantasias que exercemos no carnaval. As mulheres maravilhosas que só aparecem nos desfiles de Escolas de Samba, das fantasias “ingênuas” dos blocos de rua, no jogo sensual e brincalhão de homens, que liberam suas vontades, ao se vestirem de mulher, na doce fantasia de ser feliz nesses quatro dias.
Carnaval é fantasia total, é achar que ao liberar nossas vontades seremos felizes para sempre. Existe até uma frase que fala que amor de carnaval não dura, aliás, pura fantasia. Ele pode durar em qualquer época, e como diz a sabedoria popular, o que tiver de ser será...rsrs
Vamos viver esse mix que são as mentiras, fantasias e carnaval, sabendo que o importante são as coisas que ficam, internamente, na nossa emoção, sejam elas de mentiras, fantasias ou mesmo carnaval.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

POIS É...

Como pertencer a três culturas diferentes?
Não sei explicar, só sei sentir... Aconteceu comigo. Nasci de família espanhola e portuguesa, na cidade do Rio de Janeiro, vivendo a infância e adolescência diretamente ligada às colônias dessas duas culturas, só escapando desse convívio quando ia à escola, pois, até os Clubes, eram portugueses, e o contato era constante. Na universidade, na qual cheguei bastante jovem, meu contato com o Brasil se solidificou.
Aprendi a ter um olhar diferente, um pouco estrangeira, sempre...
Portugal me deu o homem mais doce, carinhoso, romântico, fiel, que eu conheci; meu avô paterno. Com ele aprendi os versos de Camões, a entender as óperas, a rezar, a ouvir histórias sobre a família. Ele amava tanto a sua pátria que tinha, em seu quarto de dormir, a bandeira de Portugal. Diante da exigência do Ministério do Exército, onde trabalhou e comandou inúmeras obras, algumas com mais de 200 operários, de que ele se naturalizasse, ele declinou do “convite”, e se aposentou... Ele era um homem fiel.
Até hoje vejo Portugal com um olhar comovente. Essa Terra me emociona, sou capaz de parar na rua para observar os imigrantes portugueses, que aqui vivem, todos já idosos, só pra matar a saudades dos meus, que já se foram.
Quando viajo pra lá, quem vai é a portuguesa Nádia. Entendo tudo; a sinceridade diretiva, uma certa desconfiança, as queixas sobre tudo, etc... Sem dúvida Portugal é meu Porto Seguro. Só uma coisa me deixa triste: Acharem que sou brasileira, mas eu compreendo, também, isso... rs
Chegar à minha aldeia é rever um mundo que me pertence. Terra que dança ao som das minhas lembranças ancestrais. Fico a imaginar meus antepassados, provavelmente, servos de algum senhor feudal vivendo naquela região. Como num quadro, eu saio da moldura e faço a minha viagem interior, me imaginando aquela camponesa que ainda está presente no meu DNA.
Quanto mais eu compreendo Portugal, mas entendo o Brasil.
A Espanha vive em mim de maneira diferente. Ela está mais ligada à sensualidade, à música, à língua, aos aromas, à gastronomia.
Sou profundamente espanhola; amo as músicas que aprendi na infância, minhas castanholas, essa “guerrinha” de Espanha contra Portugal, apenas por motivos banais... rs
Amo, também, essa paixão, a intensidade, o querer espanhol. Meu jeito feminino é Espanhol. Modo de maquiar os olhos, o baton, cabelos sempre soltos e longos, ombros de fora, o gostar de lenços. Talvez, o estereótipo da mulher espanhola. Uma coisa que remonta aos celtas, ciganos, árabes e sefaraditas, que bailam nos meus genes, avisando que ali tem uma babel correndo em minhas veias.
A Espanha é o meu mistério. É o saber que aquele pueblo da minha família, acabou, pois todos imigraram. Que minha família em Madri sabe menos sobre a Espanha que eu. Que vivo a pesquisar minhas origens e as histórias familiares.
Nessas origens eu encontro a mulher que sou. Nas mulheres fortes da família, que não tinham meu humor, mas que seguraram todas as barras de uma guerra civil, perda de filhos, imigração, e separações de familiares, vejo o quanto eu posso crescer e ser plena.
Que as enxurradas na vida, não derrubam grandes árvores, pois elas têm raízes fortes, e que um dia elas dão frutos e, um desses frutos, sou eu.
Meu primo espanhol me disse, na última vez que lá estive, que tenho um “olhar espanhol”; perguntei o que significava isso. Ele, simplesmente, respondeu que era aquele olhar que vê tudo, mas só revela o que interessa... Enfim, é o meu mistério...
Bem, depois dessa viagem européia, acontece um país tropical. Caí de paraquedas nessa família imigrante, num 21 de novembro, quase verão, nos braços apaixonados de uma babá negra e, através dessa mulher divina, eu conheci o Brasil.
Ela foi meu colo brasileiro. Minha mãe dizia que era como café e leite. Eu “rubia”, ela profundamente negra, e eu só dormia embalada nos seus braços. Até hoje, no meu aniversário, ela me telefona, e me chama de “minha branquinha”. Sem dúvida, agradeço a essa maravilhosa mulher, pelo amor, carinho, ternura, que me acompanhou até aos meus oito anos, quando ela saiu da casa dos meus pais, fazendo um casamento lindo, onde eu fui sua dama... Enfim, coisas do Brasil.
No Rio de Janeiro, sou a carioca, que anda no calçadão, bronzeada o ano inteiro, que tem cabelos dourados pelo sol e mar, com sotaque, dona do jeitinho brasileiro de ser, mas que trabalha muito, porém, mantém aquele ginga alegre, pois ela é fruto dessa terra.
Através do Brasil conheci a dura realidade das diferenças sociais, sai do meu sonho encantado de menina bem nascida, para as verdades das ruas.
Consegui ter um olhar crítico das nossas mazelas, sem ser paternalista, mas com muita compaixão, por saber que temos um povo sem grandes oportunidades na vida.
Aprendi com meus alunos, em escolas carentes, o outro lado da vida. Recebi deles muito mais do que dei. Aprendi a amar mais e mais esse país lindo, mas cheios de contradições. Compreendi suas diferenças, interpretei seus defeitos, qualidades, algumas vezes com olhar estrangeiro, outras vezes com o olhar do coração.
Somos sempre um mosaico, e é isso que nos faz tão interessantes como pessoas.
Transito bem por essas três culturas, fazendo sempre uma leitura do meu amor por esse mundo.

sábado, 29 de janeiro de 2011

AROMAS...

Vivemos numa cultura altamente visual. A aparência das coisas é de total importância. Vendemos um produto pela sua aparência. Comemos primeiro, com os olhos, dizem alguns. Ficamos “apaixonados” por pessoas ditas bonitas. Evitamos seres que não se encaixam nos padrões de beleza atual.
Muitas das vezes rotulamos pessoas, locais, situações, apenas pela forma como a “enxergamos”.
Eu nasci meio na contramão dessa cultura visual. Claro que, também, fico fascinada diante de algo que para mim, seja belo. Porém meu melhor sentido é o olfato.
Os aromas comandam meus instintos. Sou primitiva, animal, em se tratando de cheiros.
São eles fontes das minhas lembranças, sejam da infância, adolescência, idade adulta...
Comecei a perceber isso, quando ao relembrar certos fatos, sempre me referia aos cheiros, como ponto de partida dessas recordações.
Uma das minhas lembranças mais primária era o cheiro de rosas do perfume da minha mãe. Seu colo exalava o aroma dessa flor. Engraçado nunca perguntei que perfume ela usava quando eu era criança, só sei que ao chegar perto de rosas, era dela que eu sempre me lembrava. Minha doce flor, que partiu tão cedo...
Um cheiro recorrente em minha vida é também, uma lembrança da menina que fui. Meu pai foi um fumante tenaz, ainda lembro a fumaça do cigarro subindo do cinzeiro, contra a luz do abajur. Esse sentir me lembra homem, talvez segurança, mas não gosto mais. Sou totalmente contra ao cigarro, seu cheiro, e suas conseqüências.
O cheiro de terra molhada lembra os jardins da casa dos meus avós. Tanto quando chovia, quando a minha avó, no final das tardes quentes molhava as plantas, sem nenhuma preocupação com o desperdício da água... rsrsr
E o cheiro de tamarindo? Esse me lembra a primeira escola, onde eu colhia os tamarindos do chão, e me deliciava com aquele amargor, escondida atrás do parquinho, pra não dividir com ninguém.
O perfume do bife da minha avó, não tinha concorrente, eu podia sentir subindo as escadas da varanda da frente. Bolos de chocolate, refogado de feijão, café passado de fresco, doce de coco de panela, banana frita com canela e açúcar, sardinhas assadas na brasa, também são inesquecíveis ao meu olfato.
Os brinquedos novos tinham um cheirinho todo especial de plástico, ou melhor, de brinquedo novo mesmo... rsrs
Cresci, e na minha memória sentimental as fragrâncias do primeiro baton, dos perfumes importados da moda, da lavanda que minha mãe colocava nas gavetas, e que dava um cheirinho gostoso nas roupas. Todas vivas dentro de mim...
Meus namoros também foram pontuados pelos cheiros. Aquele perfume do menino mais charmoso era de limão, nem sei o motivo, mas era... rs
Depois o namorado mais velho, com cheiro de homem que sabia das coisas, mas que virava menino diante da minha adolescência.
Não sei quantas vezes me peguei cheirando as camisas do amado, e como é bom sentir o perfume, natural do corpo do outro, no nosso corpo...
O perfume que exala de uma nuca, fica pra sempre no limbo da memória, e não morre jamais dentro de nós. Como um barco ancorado nos nossos afetos.
Alguns cheiros me excitam, outros me afastam, mas alguns me atraem, e por aí vai.
Não gosto de perfumes doces, eles me enjoam, e me lembram mulheres delicadinhas, boazinhas, perfeitinhas, previsíveis, chatinhas demais... rs
Talvez por isso, só uso perfumes masculinos. Bem, você pode estar se perguntando; você tem cheiro de homem??
Não, claro que não. Cada perfume depende sempre da pele de quem usa. Nunca, apesar de sempre usar perfumes masculinos, tive cheiro de “homem”, aliás, muito pelo contrário. Acho até que os hormônios femininos, misturados com a química masculina, funcionam muito bem.
Adoro cheiro de cabelos, pode ser aquele recém saído do banho, ou mesmo seco, com algum condicionador inspirador.
Durante algum tempo fui fascinada pelo cheiro de chiclete na boca da pessoa amada, ou então, o suave buquê do vinho passado através de um beijo. Bom demais!
O cheiro de travesseiros também me faz muito bem, neles se guardam as lembranças de noites de sono, ou de amor...
O perfume do roupão de banho, da toalha molhada com o aroma do sabonete, o desodorante que não “briga” com o cheiro do corpo. O perfume da maçã, recém devorada, na boca de alguém.
Amo também, o cheiro de carro novo. Os acentos vêm com um aroma especial, que contribuem com lembranças alegres, desde o primeiro carro zero.
Hum... E o cheiro do mar? Ele vem através do vento, e nos pega de sopetão. Faz com que as lembranças corram soltas pelos caminhos dos mistérios, levando o pensamento pra além mar...
Os quintais da minha infância tinham cheiro de fruta madura, eu “menina de apartamento”, ficava maravilhada quando podia freqüentar um.
O cheiro do amor, eles não ficam apenas nos lençóis, travesseiros, ficam no corpo, na alma, na lembrança de quanto se foi feliz... Sentir na pele o cheiro do amor é uma delícia!
Os animais são comandados pelos cheiros. Eu como animal racional também, pois já me apaixonei por odores, ao ponto de sentir falta deles.
Aromas são lembranças que ficam pra sempre em nossos labirintos internos. Deles são as nossas recordações mais íntimas, primitivas, profundas.
Se eu pudesse definir um aroma pra ser lembrada, queria que fosse uma mistura de canela, limão, sândalo, e lavanda. Não sei o que essa combinação daria, mas com certeza, eu iria gostar. Acho que valeria a pena tentar...
Fragrâncias, amor e felicidade, são coisas que, às vezes, se encontram...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

RESPOSTA AO TEMPO

Um novo ciclo se encerra, ano que acaba, vida nova que reinicia...
Será que isso é verdade?
Calendário existe apenas pra enumerar o tempo, quantos anos temos, em que ano compramos tal imóvel, o dia do vencimento da conta de luz.
Contamos nosso tempo, na verdade, pelas nossas emoções, sejam elas positivas ou negativas.
Podemos até citar datas, mas o que conta mesmo é aquilo que vivemos. O recheio, não os dados. Não somos um gráfico de estatística, somos humanos. Vivemos de emoção.
É normal as pessoas, se referirem na “minha época”, como se o agora não existisse e, o presente, não tivesse nenhuma importância.
Normalmente nos referimos à “nossa época”, por causa da emoção vivida durante esses anos dos quais chamamos de nossa...
O tempo é sempre o hoje, o passado foi vivido, mas não é nossa época, é passado, apenas. Pode ter sido de grande importância, mas foi, aconteceu. Talvez, tenha ficado pra sempre feito cicatrizes, mas passou... Será?
Mudamos de roupa, de vida, de amores, de trabalho, país, não importa, não é o tempo que determina, são as emoções que vivemos nesse período, que vão marcar nosso calendário interior.
O amor durou só alguns meses, foi maravilhoso, mas acabou. O casamento foi sofrível, e sobreviveu à vida inteira. O que foi mais significativo? Que tempo marcou mais? Tempo?
O que chamamos de tempo, o ciclo da vida, nosso próprio envelhecimento, fazem parte dessa passagem. O tempo é diferente na natureza, pois essa, dependendo do espaço geográfico, tem suas estações bem marcadas, num ciclo de renovação, que engloba o mundo animal e vegetal.
Cabe a nós, simples mortais, fazer desse espaço, entre nosso nascimento e a morte, algo digno de ser contado como tempo de emoções.
Conheci uma pessoa que todas as vezes que ela queria contar uma história feliz, falava sobre uma viagem onde ela foi muito amada...
Não que ela não tivesse vivido outras coisas boas, mas, com certeza, essa experiência foi uma das melhores da vida dela.
Nossas emoções nos marcam como tatuagens na alma, e por elas vale a pena ter vivido.
Enfim, vamos passar. Um dia acabaremos, e ficará aquela lembrança, talvez, numa foto, de um certo olhar, de cabelos ao vento, de uma gargalhada feliz.
Nossas emoções vão conosco, as histórias também e, quem sabe, um dia vamos nos encontrar por aí...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ENTÃO É NATAL...

Tive natais maravilhosos. O natais de infância foram sensacionais, pois fruto da primeira geração da família nascida no Brasil, e já com uma situação financeira boa, eles foram recheados de comida farta, decoração bonita, muitos presentes, e o principal, uma família unida.
O aniversariante era sempre lembrado, pois meu avô português era muito religioso, e missa era obrigatória. Apesar de meu pai, ter se tornado ateu...
Passávamos sempre na casa dos avós paternos, onde jantávamos na mesa grande, cercada dos avós, pais, irmão, tios e primos. Lá iam também alguns vizinhos, todos portugueses, num entra e sai sem parar. Muito vinho, e o impressionante, ninguém ficava bêbado...rsrs
Uma vez comi 25 bolinhos de bacalhau, claro que eram pequenos, mas foram contados pela minha avó, que fritava e eu comia... Depois fiquei anos sem poder olhar para os tais bolinhos...rsrs
Quando tinha adesão de outros amigos portugueses, meu avô colocava a mesa ampliada, no quintal da enorme casa, e lá sentavam muitas pessoas; um jantar luso, com lombo de bacalhau, muito azeite, os tais bolinhos, frango para os que não gostavam de bacalhau, leitão, vinho e sobremesas maravilhosas. Uma verdadeira orgia gastronômica, que minha avó fazia sozinha.
O pinheiro do jardim era enfeitado com flocos de algodão, e eu nem achava aquilo cafona, e corria quando o vento soprava os floquinhos, pra colocá-los no lugar.
Tinha um presépio no jardim, numa casinha de madeira, feita por meu avô. De noite, ele ficava iluminado. Lindo!!!
Ainda posso ouvir o burburinho das vozes, sotaques fortes, eu correndo com os primos - os mais velhos escutando música, e minha avó reclamando do som alto.
Brigas políticas também ocorriam - meu pai, homem de esquerda, contra meu tio, irmão dele, um extremista de direita. Minha avó, sempre ela, aparando as arestas, e mandando pararem com isso, e lembrava do aniversariante... JESUS!
Depois, íamos para casa dos avós maternos espanhóis Lá tudo era mais calmo, pois não havia crianças. Eu e meu irmão éramos os únicos netos, pois meus dois tios não tiveram filhos. Mas uma coisa acontecia quando chegávamos para a ceia de meia noite.Éramos a alegria da “festa”, paparicos por todos os lados, e a “saudável” mentira de que papai Noel já havia passado e deixado os brinquedos lá.
Abria os presentes com gula, sem ainda imaginar que quantas crianças iguais a mim, nada tinham pra comer, nem brincar. Eu, na minha doce ingenuidade, achava que o mundo era bom, e que todos tinham uma família como a minha.
Na madrugada, voltávamos pra casa. Colocava meu sapato na janela, e dormia excitada, imaginando que outras novidades o bom velhinho me traria.
Na manhã seguinte, era de novo festa. Almoço na casa dos avós maternos, e jantar na paterna. Muita comida, afeto, alegria, sonhos, abraços, beijos, e presentes.
O tempo passou. Os netos cresceram, casaram, um bisneto nasceu, meus 3 avós morreram.E o natais foram ficando diferentes.
Também casei, tive filho, e minha avózinha materna, insistindo em fazer o natal em sua casa. Aí resolvi assumir o papel de “matriarca” e fazer nossos natais.
Fiz tudo que tinha direito. Queria oferecer ao meu filhote, os seus melhores natais.Ele filho, neto, e bisneto único, sem fazer dele um menino chato, nem mimado.
Durante anos decorei a casa, como ninguém, coisa de louca mesmo, pois até o quarto dele tinha decoração natalina, com direito a árvore, e tudo mais.
A alegria do meu menino era tudo - iluminava nossas vidas. Ele costumava “roubar” o menino Jesus do presépio da sala e colocá-lo no quarto dele. Lembranças doces.
Contei a ele a história do aniversariante, ele ficou emocionado, e fez muitas perguntas... Como se eu pudesse responder a todas as perguntadas do mundo....
Um dia, ele com uns 5 anos, me chamou pra uma conversa séria. Sentados na cama, ele, com os olhos cheios de lágrimas, me perguntou: Papai Noel existe??? E completou: um
amigo da escola, disse que não existe.Diante daquele olhar, resolvi perguntar uma coisa: Você gostaria da verdade, né?
Ele, já com as lágrimas correndo no rosto, balançou a cabeça, que sim...
Olhei aquele rosto lindo em lágrimas, e mentindo, disse que ele existia, pois achei que era a “verdade” que ele queria ouvir. Ele sorriu, limpou o rosto e saiu correndo. Nunca mais me perguntou nada sobre papai Noel. A transição para a descoberta foi tranqüila, ele não mais chorou...
Tempo passou, como sempre... A avó se foi, minha mãe também. O filhote cresceu, mas nos mantivemos firme, união é importante, e lembrar “dele” faz bem a alma.
0s natais passaram a ser mais solidários, eu, dando os brinquedos novos e roupas dele, para orfanatos, e mostrando o outro lado da vida.
Esse ano vai ser a primeira vez que meu filhote vai passar o natal longe. O pássaro está deixando o ninho, preferiu ir viajar com os amigos, pra um outro país.
Assim como os pássaros, vou olhar pra meu ninho vazio e agradecer por ter podido ter a companhia dele durante todos esses anos, mas que agora é hora.
Hora de voar alto, lindo, saudável, sem vícios, educado e com muito amor por nós. Vai meu filhote, descobrir novos caminhos, e lembre-se, pra sempre, dos nossos natais.
Que um dia vc possa reproduzir aqueles natais para seus filhos e se lembre sempre do aniversariante, das coisas que ele pregou, e dessa família que muito lhe ama.
FELIZ NATAL, VINÍCIUS!