sábado, 29 de janeiro de 2011

AROMAS...

Vivemos numa cultura altamente visual. A aparência das coisas é de total importância. Vendemos um produto pela sua aparência. Comemos primeiro, com os olhos, dizem alguns. Ficamos “apaixonados” por pessoas ditas bonitas. Evitamos seres que não se encaixam nos padrões de beleza atual.
Muitas das vezes rotulamos pessoas, locais, situações, apenas pela forma como a “enxergamos”.
Eu nasci meio na contramão dessa cultura visual. Claro que, também, fico fascinada diante de algo que para mim, seja belo. Porém meu melhor sentido é o olfato.
Os aromas comandam meus instintos. Sou primitiva, animal, em se tratando de cheiros.
São eles fontes das minhas lembranças, sejam da infância, adolescência, idade adulta...
Comecei a perceber isso, quando ao relembrar certos fatos, sempre me referia aos cheiros, como ponto de partida dessas recordações.
Uma das minhas lembranças mais primária era o cheiro de rosas do perfume da minha mãe. Seu colo exalava o aroma dessa flor. Engraçado nunca perguntei que perfume ela usava quando eu era criança, só sei que ao chegar perto de rosas, era dela que eu sempre me lembrava. Minha doce flor, que partiu tão cedo...
Um cheiro recorrente em minha vida é também, uma lembrança da menina que fui. Meu pai foi um fumante tenaz, ainda lembro a fumaça do cigarro subindo do cinzeiro, contra a luz do abajur. Esse sentir me lembra homem, talvez segurança, mas não gosto mais. Sou totalmente contra ao cigarro, seu cheiro, e suas conseqüências.
O cheiro de terra molhada lembra os jardins da casa dos meus avós. Tanto quando chovia, quando a minha avó, no final das tardes quentes molhava as plantas, sem nenhuma preocupação com o desperdício da água... rsrsr
E o cheiro de tamarindo? Esse me lembra a primeira escola, onde eu colhia os tamarindos do chão, e me deliciava com aquele amargor, escondida atrás do parquinho, pra não dividir com ninguém.
O perfume do bife da minha avó, não tinha concorrente, eu podia sentir subindo as escadas da varanda da frente. Bolos de chocolate, refogado de feijão, café passado de fresco, doce de coco de panela, banana frita com canela e açúcar, sardinhas assadas na brasa, também são inesquecíveis ao meu olfato.
Os brinquedos novos tinham um cheirinho todo especial de plástico, ou melhor, de brinquedo novo mesmo... rsrs
Cresci, e na minha memória sentimental as fragrâncias do primeiro baton, dos perfumes importados da moda, da lavanda que minha mãe colocava nas gavetas, e que dava um cheirinho gostoso nas roupas. Todas vivas dentro de mim...
Meus namoros também foram pontuados pelos cheiros. Aquele perfume do menino mais charmoso era de limão, nem sei o motivo, mas era... rs
Depois o namorado mais velho, com cheiro de homem que sabia das coisas, mas que virava menino diante da minha adolescência.
Não sei quantas vezes me peguei cheirando as camisas do amado, e como é bom sentir o perfume, natural do corpo do outro, no nosso corpo...
O perfume que exala de uma nuca, fica pra sempre no limbo da memória, e não morre jamais dentro de nós. Como um barco ancorado nos nossos afetos.
Alguns cheiros me excitam, outros me afastam, mas alguns me atraem, e por aí vai.
Não gosto de perfumes doces, eles me enjoam, e me lembram mulheres delicadinhas, boazinhas, perfeitinhas, previsíveis, chatinhas demais... rs
Talvez por isso, só uso perfumes masculinos. Bem, você pode estar se perguntando; você tem cheiro de homem??
Não, claro que não. Cada perfume depende sempre da pele de quem usa. Nunca, apesar de sempre usar perfumes masculinos, tive cheiro de “homem”, aliás, muito pelo contrário. Acho até que os hormônios femininos, misturados com a química masculina, funcionam muito bem.
Adoro cheiro de cabelos, pode ser aquele recém saído do banho, ou mesmo seco, com algum condicionador inspirador.
Durante algum tempo fui fascinada pelo cheiro de chiclete na boca da pessoa amada, ou então, o suave buquê do vinho passado através de um beijo. Bom demais!
O cheiro de travesseiros também me faz muito bem, neles se guardam as lembranças de noites de sono, ou de amor...
O perfume do roupão de banho, da toalha molhada com o aroma do sabonete, o desodorante que não “briga” com o cheiro do corpo. O perfume da maçã, recém devorada, na boca de alguém.
Amo também, o cheiro de carro novo. Os acentos vêm com um aroma especial, que contribuem com lembranças alegres, desde o primeiro carro zero.
Hum... E o cheiro do mar? Ele vem através do vento, e nos pega de sopetão. Faz com que as lembranças corram soltas pelos caminhos dos mistérios, levando o pensamento pra além mar...
Os quintais da minha infância tinham cheiro de fruta madura, eu “menina de apartamento”, ficava maravilhada quando podia freqüentar um.
O cheiro do amor, eles não ficam apenas nos lençóis, travesseiros, ficam no corpo, na alma, na lembrança de quanto se foi feliz... Sentir na pele o cheiro do amor é uma delícia!
Os animais são comandados pelos cheiros. Eu como animal racional também, pois já me apaixonei por odores, ao ponto de sentir falta deles.
Aromas são lembranças que ficam pra sempre em nossos labirintos internos. Deles são as nossas recordações mais íntimas, primitivas, profundas.
Se eu pudesse definir um aroma pra ser lembrada, queria que fosse uma mistura de canela, limão, sândalo, e lavanda. Não sei o que essa combinação daria, mas com certeza, eu iria gostar. Acho que valeria a pena tentar...
Fragrâncias, amor e felicidade, são coisas que, às vezes, se encontram...

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

RESPOSTA AO TEMPO

Um novo ciclo se encerra, ano que acaba, vida nova que reinicia...
Será que isso é verdade?
Calendário existe apenas pra enumerar o tempo, quantos anos temos, em que ano compramos tal imóvel, o dia do vencimento da conta de luz.
Contamos nosso tempo, na verdade, pelas nossas emoções, sejam elas positivas ou negativas.
Podemos até citar datas, mas o que conta mesmo é aquilo que vivemos. O recheio, não os dados. Não somos um gráfico de estatística, somos humanos. Vivemos de emoção.
É normal as pessoas, se referirem na “minha época”, como se o agora não existisse e, o presente, não tivesse nenhuma importância.
Normalmente nos referimos à “nossa época”, por causa da emoção vivida durante esses anos dos quais chamamos de nossa...
O tempo é sempre o hoje, o passado foi vivido, mas não é nossa época, é passado, apenas. Pode ter sido de grande importância, mas foi, aconteceu. Talvez, tenha ficado pra sempre feito cicatrizes, mas passou... Será?
Mudamos de roupa, de vida, de amores, de trabalho, país, não importa, não é o tempo que determina, são as emoções que vivemos nesse período, que vão marcar nosso calendário interior.
O amor durou só alguns meses, foi maravilhoso, mas acabou. O casamento foi sofrível, e sobreviveu à vida inteira. O que foi mais significativo? Que tempo marcou mais? Tempo?
O que chamamos de tempo, o ciclo da vida, nosso próprio envelhecimento, fazem parte dessa passagem. O tempo é diferente na natureza, pois essa, dependendo do espaço geográfico, tem suas estações bem marcadas, num ciclo de renovação, que engloba o mundo animal e vegetal.
Cabe a nós, simples mortais, fazer desse espaço, entre nosso nascimento e a morte, algo digno de ser contado como tempo de emoções.
Conheci uma pessoa que todas as vezes que ela queria contar uma história feliz, falava sobre uma viagem onde ela foi muito amada...
Não que ela não tivesse vivido outras coisas boas, mas, com certeza, essa experiência foi uma das melhores da vida dela.
Nossas emoções nos marcam como tatuagens na alma, e por elas vale a pena ter vivido.
Enfim, vamos passar. Um dia acabaremos, e ficará aquela lembrança, talvez, numa foto, de um certo olhar, de cabelos ao vento, de uma gargalhada feliz.
Nossas emoções vão conosco, as histórias também e, quem sabe, um dia vamos nos encontrar por aí...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

ENTÃO É NATAL...

Tive natais maravilhosos. O natais de infância foram sensacionais, pois fruto da primeira geração da família nascida no Brasil, e já com uma situação financeira boa, eles foram recheados de comida farta, decoração bonita, muitos presentes, e o principal, uma família unida.
O aniversariante era sempre lembrado, pois meu avô português era muito religioso, e missa era obrigatória. Apesar de meu pai, ter se tornado ateu...
Passávamos sempre na casa dos avós paternos, onde jantávamos na mesa grande, cercada dos avós, pais, irmão, tios e primos. Lá iam também alguns vizinhos, todos portugueses, num entra e sai sem parar. Muito vinho, e o impressionante, ninguém ficava bêbado...rsrs
Uma vez comi 25 bolinhos de bacalhau, claro que eram pequenos, mas foram contados pela minha avó, que fritava e eu comia... Depois fiquei anos sem poder olhar para os tais bolinhos...rsrs
Quando tinha adesão de outros amigos portugueses, meu avô colocava a mesa ampliada, no quintal da enorme casa, e lá sentavam muitas pessoas; um jantar luso, com lombo de bacalhau, muito azeite, os tais bolinhos, frango para os que não gostavam de bacalhau, leitão, vinho e sobremesas maravilhosas. Uma verdadeira orgia gastronômica, que minha avó fazia sozinha.
O pinheiro do jardim era enfeitado com flocos de algodão, e eu nem achava aquilo cafona, e corria quando o vento soprava os floquinhos, pra colocá-los no lugar.
Tinha um presépio no jardim, numa casinha de madeira, feita por meu avô. De noite, ele ficava iluminado. Lindo!!!
Ainda posso ouvir o burburinho das vozes, sotaques fortes, eu correndo com os primos - os mais velhos escutando música, e minha avó reclamando do som alto.
Brigas políticas também ocorriam - meu pai, homem de esquerda, contra meu tio, irmão dele, um extremista de direita. Minha avó, sempre ela, aparando as arestas, e mandando pararem com isso, e lembrava do aniversariante... JESUS!
Depois, íamos para casa dos avós maternos espanhóis Lá tudo era mais calmo, pois não havia crianças. Eu e meu irmão éramos os únicos netos, pois meus dois tios não tiveram filhos. Mas uma coisa acontecia quando chegávamos para a ceia de meia noite.Éramos a alegria da “festa”, paparicos por todos os lados, e a “saudável” mentira de que papai Noel já havia passado e deixado os brinquedos lá.
Abria os presentes com gula, sem ainda imaginar que quantas crianças iguais a mim, nada tinham pra comer, nem brincar. Eu, na minha doce ingenuidade, achava que o mundo era bom, e que todos tinham uma família como a minha.
Na madrugada, voltávamos pra casa. Colocava meu sapato na janela, e dormia excitada, imaginando que outras novidades o bom velhinho me traria.
Na manhã seguinte, era de novo festa. Almoço na casa dos avós maternos, e jantar na paterna. Muita comida, afeto, alegria, sonhos, abraços, beijos, e presentes.
O tempo passou. Os netos cresceram, casaram, um bisneto nasceu, meus 3 avós morreram.E o natais foram ficando diferentes.
Também casei, tive filho, e minha avózinha materna, insistindo em fazer o natal em sua casa. Aí resolvi assumir o papel de “matriarca” e fazer nossos natais.
Fiz tudo que tinha direito. Queria oferecer ao meu filhote, os seus melhores natais.Ele filho, neto, e bisneto único, sem fazer dele um menino chato, nem mimado.
Durante anos decorei a casa, como ninguém, coisa de louca mesmo, pois até o quarto dele tinha decoração natalina, com direito a árvore, e tudo mais.
A alegria do meu menino era tudo - iluminava nossas vidas. Ele costumava “roubar” o menino Jesus do presépio da sala e colocá-lo no quarto dele. Lembranças doces.
Contei a ele a história do aniversariante, ele ficou emocionado, e fez muitas perguntas... Como se eu pudesse responder a todas as perguntadas do mundo....
Um dia, ele com uns 5 anos, me chamou pra uma conversa séria. Sentados na cama, ele, com os olhos cheios de lágrimas, me perguntou: Papai Noel existe??? E completou: um
amigo da escola, disse que não existe.Diante daquele olhar, resolvi perguntar uma coisa: Você gostaria da verdade, né?
Ele, já com as lágrimas correndo no rosto, balançou a cabeça, que sim...
Olhei aquele rosto lindo em lágrimas, e mentindo, disse que ele existia, pois achei que era a “verdade” que ele queria ouvir. Ele sorriu, limpou o rosto e saiu correndo. Nunca mais me perguntou nada sobre papai Noel. A transição para a descoberta foi tranqüila, ele não mais chorou...
Tempo passou, como sempre... A avó se foi, minha mãe também. O filhote cresceu, mas nos mantivemos firme, união é importante, e lembrar “dele” faz bem a alma.
0s natais passaram a ser mais solidários, eu, dando os brinquedos novos e roupas dele, para orfanatos, e mostrando o outro lado da vida.
Esse ano vai ser a primeira vez que meu filhote vai passar o natal longe. O pássaro está deixando o ninho, preferiu ir viajar com os amigos, pra um outro país.
Assim como os pássaros, vou olhar pra meu ninho vazio e agradecer por ter podido ter a companhia dele durante todos esses anos, mas que agora é hora.
Hora de voar alto, lindo, saudável, sem vícios, educado e com muito amor por nós. Vai meu filhote, descobrir novos caminhos, e lembre-se, pra sempre, dos nossos natais.
Que um dia vc possa reproduzir aqueles natais para seus filhos e se lembre sempre do aniversariante, das coisas que ele pregou, e dessa família que muito lhe ama.
FELIZ NATAL, VINÍCIUS!

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

PARA SEMPRE ELVIS

Fui caminhar no bairro da Urca. A vista da Baia da Guanabara me acalma, e faz muito bem a minha retina. Na metade da caminhada, sou pega de surpresa por uma dessas chuvas forte de verão.
Não corro, afinal iria me molhar de qualquer jeito, pois tinha deixado o carro há mais de 2 km , de onde estava.
A chuva bateu forte, roupas coladas no corpo, totalmente molhadas, lavaram minha alma. Sem pressa fui até ao final de meu destino, retornei, e mais uma vez confirmei que as pessoas que já estão molhadas, na praia, quando chove, correm pra se abrigar. Por que será? rsrsr
Na volta, presa no engarrafamento de um fim de tarde, escuto o rádio, e observo a chuva, que teima em continuar caindo.
De repente, ele começou a cantar... Elvis, tão raro no rádio, chegou pra me encantar, e me trazer lembranças da minha vida em família.
Meus pais adoravam Elvis Presley, ele embalou a adolescência deles, e eu passei minha infância, escutando Elvis. Independente dele “estar” fora de moda...
Tinha também, alguns filmes que passavam na TV, onde se via um homem belo, de um rosto apaixonante, cantando maravilhosamente bem.
Eu que tinha dele uma imagem de juventude e beleza, fiquei surpresa ao vê-lo como uma figura bizarra, e logo depois a morte.
Na verdade apaguei aquele famoso vídeo, onde ele aparece inchado, com uma roupa cafona, suarento, cansado, totalmente decadente. Para mim, ele era uma figura “velha”, estranha, enfim, não batia com “aquele” outro.
Na minha pouca experiência de vida, não tinha noção do que se passava no mundo de Elvis, nem tinha, ainda, capacidade e maturidade para entender.
Aos poucos ele foi saindo de cena, na minha casa, e da minha vida. Nova trilha sonora tocava na família, e os meus gostos foram ampliados, e eu já nem escutava os que os pais ouviam.
Reencontrei Elvis, muitos anos depois, através de outras pessoas que gostavam dele, mas ele continuou escondidinho dentro de mim.
Com a internet, passei a “baixar” músicas, pesquisar no you tube, e ele renasceu na minha história.
Pude perceber algumas coisas nele. Li “biografias” não autorizadas, e fui tendo um carinho especial por esse homem morto, que foi “mito”, em vida, mas que sofreu como qualquer mortal.
Passei a me questionar, os motivos pelos quais as pessoas de tanto sucesso, acabam de certa maneira, da forma como ele terminou. Depressivos, envolvidos com drogas, com vidas afetivas complicadas, explorados, mal amados, frustrados, usados e alguns mortos precocemente.
Aconteceu com Jimi Hendrix, Janis Joplin, Michael Jackson, Carmem Miranda, entre tantos ídolos, com problemas, só pra citar alguns...
Carmem Miranda, que “conheci”, através da ótima biografia de Ruy Castro, era “dona” de uma personalidade adorável. Alegre, independente, líder, extrovertida, amiga dos amigos. Que mesmo assim, foi “contaminada” pela síndrome do sucesso, e acabou literalmente, “sendo morta” por excessos de remédios para dormir, aos 46 anos de idade.
Voltando a ele. Elvis foi um ídolo, não só para geração dele, mas um divisor de águas, entre um mundo ainda ligado a grandes orquestras, e alguns cantores clássicos.
Elvis “jogou” no mundo o “Rock and Roll”. Com ele veio o direito do homem dançar sensualmente, sem ser julgado homossexual. Elvis era sexy!
Toda uma geração se espelhou nas atitudes dele, que era um “bom rapaz”, que adorava a mãe, e muito dependente desse sentimento. Ao contrário de outro ícone da época, James Dean, Elvis tinha família, era sentimental, nada revoltado, queria apenas ser sucesso. Afinal, conseguiu...
O restante da história, todos nós sabemos. O belo Elvis, que poderia ter todas as mulheres do mundo, como simples ser humano, se apaixonou pela linda Priscila, com ela casou, mas casamento não é conto de fadas, e a musa foi embora, talvez cansada, das bebedeiras, da montanha russa dos sentimentos desconectados, e com ela levou a única filha do casal.
Daquele momento em diante, o ídolo caiu de vez. Sem amparo sentimental, a mãe já tinha morrido há tempo, e sem aquele grande amor, Elvis se mostrou frágil, manipulado, usando cada vez mais remédios para depressão, e para dormir. Com tendência a engordar, perdeu a figura sensual, envelheceu precocemente, afundou...
Fiquei imaginando um diálogo impossível, entre eu e ele. Seria uma “viagem” no tempo.
Eu uma pessoa de outra geração, que nasceu no Brasil, de mundos diferentes, sentaríamos nos jardins dos meus avós, daquela casa que já nem existe mais, cercados pelos jasmins, damas da noite, e bouganvilles, plantados pela minha avó. Naquele banco de madeira feito pelas mãos calejadas do meu avozinho português, travaríamos uma conversa de horas. Aquelas que só temos com grandes amigos, e mesmo assim, com muitas afinidades...
Falaríamos de amor, dos nossos medos, em que momento ele se perdeu, e da falta que faz a gente não ter contado com nosso mundo interior. Falaríamos de como a autoestima é importante, e de como o amor próprio é fundamental pra sobrevivência de qualquer ser humano.
Depois ele iria se levantar, beijaria as minhas mãos, e sumiria no escuro da noite... com um breve: Espero você lá...
Talvez, quando esse dia chegar , eu o encontre já refeito das mazelas humanas, lindo, sorridente e cantando, só para mim, “Love me Tender”...
E, devolvendo aquele sorriso, eu afirmaria: Agora é para sempre!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

SIMPLES DESEJO!

De repente pensei nas coisas simples que me fazem feliz.
Como gosto de coisas, que não dependem de ninguém, ou melhor, que estão lá, só para serem usufruídas, é fácil e simples relacionar...
Bem, algumas precisam de uma ajudinha alheia, mas se não acontecer, vivo outras coisas...
Então, vamos lá...!
Ver a Baia de Guanabara, do bairro da Urca, é algo que todos deveriam fazer antes de partir desse mundo.
Um passeio na Lagoa, de bicicleta, sentindo seus contornos, é de tirar o fôlego.
Sentar na Pedra do Arpoador e olhar o mar, depois dar um mergulho, e com a alma lavada, ficar pronta para os nãos da vida, faz um bem enorme.
Tomar suco de morango com laranja, também é bom; e sorvete de pistache? Hummm!! Delícia!!
Ficar horas no telefone, com um amigo (a) querido (a), com quem a gente tem mil afinidades, é tri, como dizem os gaúchos... rsrsr
Conversar com desconhecidos, e descobrir que são inteligentes, e bom de papo, cai muito bem...
Tomar água de coco, no mirante do Leblon, com uma das vistas mais bonitas do mundo, também é gostoso...se for com uma companhia bacana, melhor ainda.
Aquela pipoca com queijo da esquina, eu não resisto, e quer saber; o pão na chapa, cheio de manteiga, da padaria do bairro, também não.
Os doces portugueses? Como sem culpa, depois vejo o prejuízo, mas na hora, vou fundo...!
Adorooo escutar música alta, ou então sou radical, com fones nos ouvidos, e os vizinhos agradecem.
Dançar na sala, também é legal, se for acompanhada, é ótimoooo!
Caminhar de mãos dadas também é muito bom, e aquele beijo sem razão? Aliás, existe beijo sem razão? rsrsrs
Dar um cheiro no cangote, e sentir o perfume dele, é demaissss!
Ler um bom livro de uma só vez, é um mergulho fundo na fantasia, e vale mais que uma sessão de terapia...
Telefonar para os pais, e dizer que gosta deles, pode assustar, mas é muito bom, e faz bem...
Fazer um chamego, nos cachorros da rua, pode acabar em mordida, mas ninguém paga o olhar carente e agradecido de um cão abandonado, acarinhado...
Trabalhar em algo que nos dê um prazer imenso, também é super, até passa a ser lazer.
Sair com os amigos, falar besteiras, rir muito, é melhor que fazer plástica rejuvenecedora...rsrsr
Ver o por do sol, em Ipanema, é de agradecer por ter nascido nessa cidade.
Andar numa trilha, no meio da mata, pela manhã, cercada de passarinhos, também me faz muitooo feliz.
Ter recebido aquele mãeeeee, do filho de 3 anos, quando ia para o trabalho, e o ver correndo para os meus braços, é inesquecível.
Ser feliz, ao contrário de ter razão, faz bem demais.
Ouvir: “Cala a boca e me beija”, é muito melhor que ouvir: Você está certa...
Ficar de mãos dadas, com avó doentinha, pode dar um aperto no coração, mas fica pra sempre, na lembrança, esse momento de ternura e amor.
Aquele abraço apertado, dado pela grande amiga, não dá para esquecer, e como consola...
Sentar no cinema, com uma barra de chocolate branco, mas preto também serve, e ver um filme legal, no meio da tarde, também é um super desejo, e fica um gostinho bom na alma.
Receber um torpedo, e-mail, telefonema, bilhetinho, etc., dizendo que gostam da gente...Poxa! É demais!!
Na falta disso, olhar para o espelho e pensar; garota você é maravilhosaaa! Também ajuda...rsrsr
Tomar um banho demorado, passar um hidratante de morango com champagne, no corpo, soltar os cabelos ao vento, para que ele seque, assim, livre. Um pouco de baton, cor de boca, colocar uma sandália confortável, um jeans surrado, aquela blusa preferida, e duas gotas de perfume na nuca. É maravilhoso!!!
Ter um dia inteiro pra curtir, e saber que todos os dias deveriam ser assim, pelo menos na imaginação, também não tem preço, e vale a pena viver...!
* Os locais citados, ficam localizados no Rio de Janeiro/Brasil

terça-feira, 16 de novembro de 2010

CAÇADORA DE BEIJOS

Amo viajar, conhecer novas culturas. Como sou profundamente observadora, nada me escapa. Gosto de ver a vida, dos diferentes de mim, até por achar que, no fundo, todos somos muito iguais, pois sempre buscamos ser felizes, independente da cultura que nascemos. Porém a minha felicidade pode ser diferente do que seria para um esquimó.
Não sou consumista, aliás, sou péssima compradora. Limito-me a ver o artesanato local, algumas lojas bacanas e a comprar perfumes no Duty free.
Quero ver gente, paisagens, conversar, sentir o charme local, comer coisas diferentes, mesmo quebrando a cara...rs
Adoro me perder em vielas, becos, pois sempre descubro algo novo, inusitado.
Muitas vezes, sento em um banco de jardim, outras num bistrôzinho escondido; já fiquei um bom tempo na escadaria da Praça de Espanha, em Roma, sentido as pessoas, observando seus hábitos, modo de falar, suas vidas...
Num inverno infernal da fria Nova York, comecei a perceber que todos os passantes que estavam juntos, nunca demonstravam nenhum ato de carinho. Aí virou obsessão, queria flagrar um beijo, um simples beijo.
Fiquei uma semana na cidade, fui a vários lugares, andei pelas ruas, no Central Parque, grandes lojas, na Estatua da Liberdade, restaurantes, enfim todo roteiro turístico, e não turístico, já que era a primeira vez que meu filho ia à cidade, e eu queria mostrá-lo tudo.
Não consegui “pegar” nenhum beijo, e o pior, nem mãos dadas. Percebi que mesmos os casais, com filhos, pouco se tocavam, e nem as crianças eram beijadas em público.
Sentia que algumas pessoas se namoravam, pelo modo como conversavam, mas mesmo essas não se tocavam, nem se abraçavam. Não consegui uma fagulha de desejo, de sensualidade explícita, de algum toque mais ousado. Logo eu, que falo com as mãos, e vivo tocando meus afetos.
Depois, embarquei para a Disney, continuando meu roteiro infanto/ juvenil, e lá continuei caçadora de beijos, pois era assim que eu me sentia.
Nova desilusão, pois nada de conseguir flagrar um ato de carinho rasgado, um olhar mais fundo, uma mão provocante de uma pessoa apaixonada e cheia de desejos... nada.
Claro que, em todos os Estados Unidos, alguns se beijaram, outros se abraçaram, mas diante dos meus olhos, isso não aconteceu.
Cada cultura tem sua forma de demonstrar amor, afeto, carinho, desejo. Compreendo isso e respeito, porém, para uma lusa/galega/carioca, não abraçar, beijar, demonstrar carinho explícito, é quase uma heresia.
Acho impossível, estar amando, seja namorado, marido, filhos, pais, amigos, sem dar um abraço apertado, uma mexida nos cabelos, um carinho no rosto, um beijo gostoso, na pessoa amada, mas cultura é cultura. Cada um na sua, mas no fundo quem não gosta de carinho inesperado, um sorriso cativante, abraço sem esperar, e até aquela declaração louca, para passantes desconhecidos que se ama aquela pessoa, que está ao nosso lado... rsrsr
Enfim, salve a cultura latina, que consegue demonstrar seus afetos sem maiores pudores.
Bom é beijar sem culpa, andar de mãos dadas, seja em que tempo for, abraçar apertado, e sentir que viver nossos sentimentos com liberdade, ainda é a melhor opção.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

UM GATO CHAMADO ZIDANE



Tive gato na infância, mas precisamente uma gatinha. Ela viveu 8 anos e morreu de forma triste...
Depois disso, apesar de amar os gatos, não quis mais nenhum. De um tempo para cá, comecei a sonhar com gatos, e da sua amorosa companhia a distância, pois são todos muito independentes.
Sempre me senti meio felina, pois adoro estar junto com as pessoas, porém amo ficar só também...
Pensei em adotar, um vira lata. Imaginava toda uma vida nova, com meu gato.
Resolvi escolher um nome, seria ZIDANE, mas chamaria, na intimidade de ZIZU, igual ao jogador francês e charmoso.
O tempo passou e a vontade também. Certas coisas se não acontecem na hora, passa o desejo. ZIDANE ficou numa história não concluída, num sonho não mais sonhado.
Deu preguiça, passou...!
Pra minha surpresa, ZIDANE já existia e fui encontrá-lo bem distante do meu mundo.
Viajei no mês passado, e numa ilha da Grécia, mas precisamente em Santorini, ele estava lá, esperando a vida inteira por mim.
Foi um encontro rápido, mas fulminante. Encontramos-nos num restaurante, ele me viu primeiro, deduzo, pois só o senti quando ele andava pelas minhas pernas, por debaixo da mesa. Levantei a toalha e dei de cara com ele, seu olhar era penetrante, olhar de ZIZU, ele miou. Estaria com fome? Mesmo sendo ali um restaurante??? Tenho que esclarecer uma coisa. É normal, tanto na Grécia, quanto na Turquia gatos e cachorros nas ruas, mas ao contrário do que no Brasil, lá o poder público castra, vacina, mas não os recolhe e a população continua jogando seus animais fora.
Bem, foi paixão à primeira vista, claro que dei comida do meu prato pra ele. Aliás, detesto ração, pois a acho cancerígena. Isso durou todo o tempo do longo almoço. Ele não se afastava de mim. Chegando ao fim, hora da despedida, alisei sua cabeça, bati uma foto, para não esquecer e segui pelas vielas da ilha.
Entrei em vários becos , subi e desci escadas e de repente,olhei para baixo e ele estava lá, me seguindo.Nunca vi gato bicho seguir ninguém...rsrsrs
Não resisti e peguei no colo, ele fechou os olhos, como se tivesse encontrado um porto seguro. O restante do passeio foi com ele no meu colo, e eu me perguntando, e agora que faço com esse amor???
Não queria ver mais nenhuma paisagem, queria saber que fazer com ZIDANE, como poderia embarcar com um gato, sem nenhum dado, sem certificado de vacinas, e ainda tendo cidades para conhecer?
Era uma tortura, aquele amor peludo, lindo, amoroso, estava me fazendo mal.
Eu me perguntava, mas gato é tão independente, que carência é essa ?
Sentei no chão e o soltei, ele ficou a me olhar, com jeito de quem nada estava entendendo, um olhar interrogativo, olhar de quem desconfia que vá ser abandonado...
Conclui que ZIDANE chegou na hora errada na minha vida, não era o momento, não era a minha vontade, não iríamos viver uma história de amor, nem cumplicidade, doação, nem eu poderia cuidar dele, naquele instante...
Deixei ZIZU ir, mas ele não queria, e ficou parado, só me olhando, como se dissesse:
- Você me conquistou e agora me abandona!
Resolvi deixá-lo na porta do restaurante onde ele me encontrou, falei com o atendente, e ele me confirmou que ZIZU, era um gato de rua, mas que eu podia deixar por lá mesmo. Coloquei-o no chão, evitei olhar muito e sumi nos becos, com um medo atroz de ser seguida e não resistir aquele olhar carente de amor.
Agora tenho certeza, ZIDANE existe, mora na Grécia, e será eternamente meu.